Aracaju (SE), 15 de outubro de 2026.
Especialistas em saneamento discutiram os desafios para universalizar o acesso à água tratada e à coleta e ao tratamento de esgoto durante a 81ª Semana Oficial da Engenharia e da Agronomia (Soea), na tarde desta quinta-feira (15), em Aracaju (SE). No painel “Revolucionando o saneamento no Brasil”, os participantes apresentaram indicadores sobre a situação do setor e destacaram a importância dos investimentos, da inovação tecnológica, da formação profissional e do compromisso social da engenharia.
Na abertura do debate, a presidente-executiva do Instituto Trata Brasil, eng. civ. Luana Pretto, destacou o saneamento como uma causa que exige conhecimento, dados e diálogo com a sociedade. Segundo ela, embora os profissionais da engenharia estejam habituados a pensar em obras e soluções técnicas, é fundamental conquistar a licença social para ouvir a população, compreender suas necessidades e desenvolver alternativas adequadas à realidade de cada comunidade.
A dimensão desse desafio fica evidente nos números apresentados. Enquanto 99,8% dos domicílios particulares tinham acesso à energia elétrica em 2026 e 90,5% da população tinham acesso à internet em 2025, segundo os dados exibidos na apresentação, os acessos à água tratada e ao esgotamento sanitário permanecem desiguais. Conforme os indicadores apresentados, 84,1% da população têm acesso à água tratada e apenas 56,7% contam com coleta de esgoto.

Em números absolutos, cerca de 33 milhões de brasileiros não têm acesso à água tratada e aproximadamente 90 milhões vivem sem coleta de esgoto. Além disso, apenas 51,8% do esgoto gerado recebem tratamento, enquanto 39,5% da água são perdidos antes de chegar às residências. Os indicadores têm como referência dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa), com ano-base 2024, e outras fontes citadas na apresentação.
Desigualdade que começa na infância
Além da dimensão estrutural, a falta de saneamento também aprofunda as desigualdades sociais. Segundo Luana Pretto, os grupos socialmente vulneráveis são os mais afetados pela ausência desses serviços. Jovens com menos de 20 anos, pessoas autodeclaradas pretas, pardas e indígenas e famílias com renda de até R$ 2.400 estão entre os segmentos mais atingidos.
Os impactos começam na infância. Dados apresentados no painel apontam cerca de 70 mil internações de crianças de zero a quatro anos por doenças relacionadas à veiculação hídrica em 2024, além de aproximadamente 1.400 óbitos de crianças de zero a sete anos associados a essas doenças no mesmo período.
Os efeitos, no entanto, não se restringem à saúde. A ausência de saneamento também compromete o desenvolvimento educacional e as oportunidades de inserção no mercado de trabalho. Segundo os dados exibidos, jovens de 19 anos sem acesso aos serviços de saneamento apresentam, em média, atraso de dois anos na escolaridade.
Essa desvantagem também se reflete na renda. Os indicadores apresentados apontam rendimento médio de R$ 3.447,79 para pessoas com acesso ao saneamento e de R$ 2.320,39 para aquelas sem acesso aos serviços.
Investimento com retorno social e econômico
Por outro lado, a universalização do saneamento representa uma oportunidade de desenvolvimento econômico. A ampliação dos serviços gera benefícios que vão além da melhoria das condições sanitárias, com potencial para reduzir gastos com saúde, fortalecer o turismo, aumentar a produtividade e valorizar os imóveis.
Nesse contexto, estimativas apresentadas durante o painel indicam benefícios de R$ 25,1 bilhões na saúde, R$ 80 bilhões no turismo, R$ 438 bilhões na produtividade e R$ 48 bilhões na valorização imobiliária associados à universalização do saneamento básico. A apresentação também aponta que a expansão desses serviços pode gerar cerca de R$ 1,4 trilhão em benefícios sociais.
Os números reforçam a importância do planejamento, dos investimentos e da atuação integrada do poder público, das empresas e dos profissionais da engenharia. Ampliar o acesso à água tratada, à coleta e ao tratamento de esgoto significa não apenas melhorar a infraestrutura, mas também criar condições para uma sociedade mais saudável, produtiva e socialmente justa.
Formação profissional e soluções regionais
Além dos investimentos e da infraestrutura, a transformação do setor depende da formação de profissionais preparados para lidar com as particularidades de cada território. Essa perspectiva foi destacada pelo professor do Instituto Federal do Pará (IFPA), Campus Belém, eng. sanit. Valdinei Mendes da Silva, que compartilhou sua experiência como ribeirinho e relatou a convivência com a falta de saneamento desde a infância. Ele também ressaltou os desafios enfrentados pelo Pará, estado que apresenta indicadores preocupantes de acesso aos serviços.
“Todos precisamos sair daqui como agentes de saneamento, pois é um problema de todos nós. As tecnologias e soluções aplicadas no Sul não necessariamente vão funcionar no Norte”, exemplificou.
A partir dessa realidade, o professor defendeu que os novos desafios do setor exigem profissionais qualificados, novas competências e uma formação conectada às necessidades dos territórios. Ele ressaltou a importância de uma engenharia tecnicamente consistente, socialmente comprometida e territorialmente contextualizada, com participação do Sistema Confea/Crea, das entidades profissionais, da engenharia pública e articulação entre instituições.
Como contribuição para esse processo, propôs uma Tríade da Aprendizagem e Transformação Territorial, voltada à formação de profissionais preparados para desenvolver soluções de saneamento adequadas às necessidades e às especificidades de cada região.
Experiências do setor
A discussão também abordou a experiência das empresas responsáveis pela prestação dos serviços. Na sequência, o presidente da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb), Luís Antônio Almeida Reis, e o presidente da Companhia de Saneamento de Sergipe (Deso), Luciano Goes, compartilharam experiências e perspectivas sobre a atuação das companhias diante dos desafios do saneamento.
Ao sintetizar os pontos debatidos, o moderador do painel, presidente do Crea-RJ, eng. civ. Miguel Fernández, destacou o caráter histórico da desigualdade no acesso aos serviços. “A universalização do saneamento é uma dívida histórica que temos com a população brasileira. Se, há 150 anos, alguém dissesse que alcançaríamos a universalização do acesso à internet e à eletricidade, mas ainda estaríamos longe de garantir água a todos, isso seria impensável”, afirmou.
Reportagem: Fernanda Pimentel (Confea)
Edição: Henrique Nunes
Equipe de Comunicação da 81ª Soea
Fotos: Dbrothers e Sto Rei/Confea
